As soluções criativas para um mundo melhor no documentário Demain

Semana passada eu vim aqui fazer uma crítica ao documentário Minimalism, que conta a história dos The Minimalists. Fiquei bastante impressionada com a quantidade de pessoas que concordou que o documentário é muito superficial e poderia ser muito melhor. Algumas pessoas também argumentaram que era óbvio que ia ser superficial porque era um filme de só 2h. Bom, daí a gente chega onde quero chegar: não precisava ser superficial com esse tempo não.

Hoje a gente vai falar de um documentário que vi na sequência do Minimalism, o Demain. Foi indicação da Fê Canna lá no grupo do UASL no Facebook e fiquei tão decepcionada com o Minimalism que resolvi ver esse em seguida pra ver se melhorava o humor. E gente, que filme bom!

Ele parte da seguinte premissa: um casal vê notícias sobre como o futuro do mundo é assustador e Cyril Dion e Mélanie Laurent que estão esperando um filho decidem descobrir soluções criativas pro mundo que o filho deles vai viver não acabar como as notícias prevêem. E aí eles vão atrás de homens e mulheres que fizeram coisas e descobriram soluções pra vários dos problemas modernos.

Se você se incomoda em saber mais detalhes do filme, talvez daqui pra frente tenham spoilers.

A postura é muito diferente nesse filme, eles vão atrás das soluções para um mundo melhor. E, mais que isso também, eles vão atrás de pessoas que já fazem e mostram o que, como, o porquê, quem, quando. Cada pessoa que fala nesse documentário fala como realmente começar a mudar o mundo amanhã. São exemplos de pessoas que fazem hortas no meio urbano, escolas com sistemas diferentes de ensinar, cidades que buscam um sistema econômico complementar ao que já existe. Todos os exemplos são possíveis de a gente sair fazendo assim que o filme acabar.

Isso é incrível. Tem muita profundidade nesse documentário. Não só porque os exemplos são realmente bem descritos, tem números, tem informações, tem o jeito que eles fazem tudo mas também as discussões sobre como o outro modelo – o que a gente vive e considera normal – tem falhas, mentiras, erros grotescos.

O documentário é costurado começando a achar uma solução para o problema da fome, então ele fala no primeiro capítulo da agricultura e mostra soluções incríveis como as hortas urbanas na cidade de Detroit ou sítios pequenos mas com uma eficiência maior (aqui) que monoculturas porque usam a permacultura produzindo comida orgânica, sem agrotóxicos porque as plantas ao seu redor se protegem.

No segundo capítulo, eles mostram alternativas à geração de energia feita com combustíveis fósseis como petróleo e carvão. Esse modelo que vivemos hoje não só é finito porque as reservas naturais um dia vão acabar como é extremamente poluente. A extração do petróleo, do carvão, de minérios (só lembrar da barragem de Mariana). Eles mostram alternativas muito legais, como a Islândia que é totalmente livre do petróleo pra geração de energia, uma ilha na França que instalou painéis solares, vários exemplos inteligentes.

O próximo capítulo fala de economia. O primeiro exemplo é muito, muito legal. É uma fábrica de envelopes e você pensa “nossa, mas o que tem de sustentável em uma fábrica de enevelopes?” e aí o filme mostra como eles passaram a investir muito do dinheiro que a empresa ganhava nela mesma. Assim eles gastam menos eletricidade, matéria-prima, água e ganha mais produtividade, segurança, modernidade. O outro exemplo me deu um nó na cabeça: são cidades que criaram moedas da própria cidade pra fortalecer a economia local. Eu acho que preciso ver de novo o documentário pra entender direito, porque a gente tá TÃO mas tão acostumado ao sistema de reais, dólares, etc que realmente dá um nó na cabeça.

O quarto capítulo é sobre democracia. Aqui, um dos exemplos é a Islândia que após um escândalo de corrupção faz protestos e o povo se reúne não pra proteger os bancos que tinha feito todo mundo perder dinheiro, mas impedir que o governo e os bancos tivessem de novo esse poder. São milhares de pessoas que se reúnem pra discutir e escrever uma nova Constituição. O outro exemplo é em um vilarejo da Índia, onde o Elango fez uma espécia de conselho municipal para discutir com as pessoas as coisas que eles queriam mudar e fazer ali, localmente.

O último capítulo é sobre educação e mostra principalmente como as escolas na Finlândia funcionam. Pra quem herdou uma mistura de sistema americano, é bastante incrível imaginar uma escola como a deles: menos horas por semana em sala, dois professores por turma, vários métodos pra ensinar e não só um, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, música, marcenaria, etc.

O gancho entre todos os capítulos é que eles são interligados. A democracia é mais forte se a educação é melhor. Se a democracia é forte, a economia de sempre pode ser questionada e assim podemos pensar em novos modelos energéticos e de agricultura. Esse ponto é super importante, porque toda vez que alguém quer levantar uma solução pra um problema, precisa lembrar que o caminho é gigantesco.

E esse caminho não é pra ser trilhado sozinho. Todas as iniciativas, todos os exemplos que o filme mostra só funcionaram/funcionam porque são muitas pessoas trabalhando pra aquilo. São vizinhos que quiseram plantar hortas na cidade toda, são pessoas de uma empresa que trabalham todos por melhorias que todos sentem, são pessoas que não permitem que o governo mude o plano de educação do país antes do tempo planejado. São pessoas, igual eu e você mas que se uniram com as pessoas próximas porque todo mundo entendeu que as coisas eram legais e boas pra todos.

Porque, vamos lembrar que moram em sociedade, em cidades, em condomínios, não moramos sozinhos. Se queremos mudanças no mundo, precisamos sentar juntos, lado a lado pra conversar e agir. Atualmente, nem conversar a gente tem conseguido, que dirá sentar e agir, concordar em uma ação. Por isso tudo aquilo ali em cima é importante, percebe? Como vamos discutir energia renovável se ainda tem gente que acha que isso “não vale a pena” ou “não precisa”? São muitas perguntas, mas o filme traz infinitas respostas. Por isso: assistam e façam pelo menos dois amigos assistirem também. Vamos espalhar essas ideias e começar a tirar elas do papel!

Demain tá disponível no Netflix, em alguns cinemas e no YouTube nesse link.

+ A cada 15 dias eu vou aparecer aqui pra falar de algum filme ou livro que fale sobre sustentabilidade, pra irmos mais a fundo nas nossas discussões, pra aprendermos cada vez mais. O próximo filme é Cowspiracy, disponível no Netflix e vamos falar sobre ele dia 21/06.

Author: Cristal Muniz

Cristal Muniz decidiu em 2015 que iria parar de produzir lixo e por isso criou o blog Um Ano Sem Lixo. Ao longo desses anos já deu várias palestras em escolas, universidades e eventos contando quais são os principais desafios e o que mudou na sua vida para alcançar o objetivo do lixo zero. Um ano virou uma vida e em julho de 2018 publicou o livro Uma vida sem lixo (Editora Alaúde), o primeiro livro sobre como ter uma vida lixo zero do Brasil.

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  • Esse documentário é fantástico! Também assisti pela indicação de uma amiga e da Fernanda também, e não me arrependi. Aliás, até me emocionei em alguns momentos. Deu um tiquinho de esperança. E ah, logo após assistir ao documentário, vim correndo para o seu blog bisbilhotar mais soluções ecológicas para aplicar ao meu dia-a-dia e compartilhar com as pessoas ao meu redor. Tem funcionado!

    Abraço,
    Roberta (@impegnare).

  • Acho que aqui no Brasil, os Caçadores de bons exemplos fazem isso. É um casal que largou tudo para viajar pelo Brasil e buscar bons exemplos de pessoas que fazem algo para mudar o mundo, até publicaram um livro, mas não cheguei a comprar.
    Bem legal esses posts sobre os documentarios! Gostei!
    Abraço.
    Walquíria

  • Amo documentários com essas temáticas!
    Já assisti Minimalist (que poderia ter sido melhor) e Cowspiracy (que amei demais!), mas esse ainda não tinha visto.
    Obrigada pela dica 🙂
    Beijos

  • Gurias,o documentário é incrível! Gostaria muito de passar para meus alunos,sabem como eu posso conseguir uma versão legendada para o português?

    • Tinha ele no Netflix, mas não tem mais 🙁 Eu não consegui mais achar, talvez no Amazon Prime tenha pra alugar.