Glossário da sustentabilidade: greenwashing

É normal que, conforme a gente se familiarize com termos que envolvam a sustentabilidade, seja mais fácil entender algumas palavras e seus significados. Mas, como eu mesma já passei pelo processo de ser confundida – de propósito – com algumas palavras, resolvi criar um glossário com termos que são muito usados. Muitas vezes, eles perdem o sentido, outras a gente entendeu de uma forma equivocada. É pra elucidar essas dúvidas que nasceu esse glossário da sustentabilidade.

Tomar consciência sobre a pegada ambiental dos produtos faz com que a gente crie estratégias para compras melhores, passe a ler rótulos de produtos e busque alternativas menos poluentes. E é pensando nisso que muitas empresas aplicam o greenwashing: para enganar. A partir daqui, vamos discutir termos que são usados para praticar o greenwashing, por isso achei importante primeiro deixar bem claro o que ele é.

Vamos olhar o que significa a palavra greenwashing:

O termo vem do inglês whitewashing que significa encobrir. O uso do green vem da alusão a cor verde aos temas relacionados à sustentabilidade. Ou seja: encobrir de verde, lavagem verde. Mentir que é verde.

Em resumo, esse termo se usa para práticas de empresas que tentam provar que elas ou seus produtos são sustentáveis mesmo não sendo. Essas práticas podem ser através de palavras, de imagens, de propagandas, etc. Nessa tese, o ecólogo Erico Pagotto separa quatro categorias onde as mentiras podem acontecer: discursos, estética, ações e portfolio.

Parece simples, né? “Ah, essa empresa gigante e super poluidora (como a Coca Cola) está com uma campanha que diz que está sendo super sustentável. É claro que é uma mentira.” Mas não é tão simples quanto parece, porque claro, as empresas são bem inteligentes e se a gente não olha com uma lupa as coisas, cai nas conversas fácil.

Um caso emblemático do ano passado foram as denúncias sobre a Loja Três, uma marca de moda que usava o discurso para se vender como super inclusiva, consciente e etc mas que acabou sendo alvo de denúncias de racismo, gordofobia e discriminações.

Como identificar o greenwashing

Discursos: observe a comunicação da marca e veja se ela usa muitas palavras-chave sem explicar o contexto delas como “natural, ecológico, sustentável, eco, biodegradável”. Se a marca não explica COMO cada uma dessas características se aplica, talvez não exista mesmo esse como.

A marca ainda pode usar dados falsos (confira a fonte e questione a fonte também!), usar dados que distorcem a realidade, pontuar só os aspectos positivos e não falar dos negativos (esse plástico é reciclado, mas depois daqui não é mais reciclável, por exemplo) ou usar jargões até meio bestas (produto amigo da natureza).

Muitas vezes, a história não está toda ou bem contada. Produto x é biodegradável? Mas de que forma? Todos os tecidos usados na roupa são biodegradáveis ou só um? Esse cosmético é natural? Então todos os ingredientes são naturais ou a maioria?

Palavras usadas: sustentável, eco friendly (não é a mesma coisa?) e cuidado responsável. Selos de: cruelty free e vegano (ok), embalagens ecológicas (?) e 1% da venda revertida a comunidade (?). Várias coisas pra se investigar para saber como essas promessas são asseguradas.

Um clássico da atualidade é usar o termo vegano muito grande e como sinônimo de natural, orgânico ou sustentável. Um produto vegano é exclusivamente sem ingredientes de origem animal e não foi testado em animais. Sua formulação pode ser totalmente nociva com ingredientes ruins para a saúde, nada de natural ou eco.

Estética: usar embalagem verde, tons terrosos, folhas e animais para que o produto seja associado à natureza. Muitas vezes até usar materiais considerados mais sustentáveis como madeira, papelão, papel reciclado, tecido para embalar ou compor de alguma forma o produto. Tudo isso para você bater o olho e pensar que o produto tem alguma relação com natureza, natural, logo, sustentável.

Ações: empresas que fazem greenwashing costumam tratar as questões ambientais básicas e que já estão na lei como diferencial. Por exemplo, ter uma política de logística reversa é lei, não (deveria ser) nada demais. Ações falsas que ajudam programas de proteção ambiental ou sustentabilidade ligadas ao consumo de um produto também costumam ser greenwashing (compre produto x e doamos y valor para causa tal; compensação de carbono, de embalagens recicladas e essas ladainhas todas rs).

Essa marca de produtos como canudos inox, saquinhos de tecido, está fazendo propaganda chamando para: "produtos ecológicos" e "mudar o mundo juntos". Mas isso só se dará vendendo / comprando os tais produtos. Será?

Portfolio: embaixo da embalagem com folhas e carimbada com umas 5 palavras que nos fazem entender que o produto é mais ecológico, tem uma lista de ingredientes que prova que é tudo mentira. Ter produtos com formulações ruins, não mudar o produto em si mas vendê-lo como melhor é greenwashing.

Acontece também da marca possuir certificação em um produto e vender como se todos da marca estivessem certificados (muita atenção para os orgânicos!).

Marcas de cosméticos que se vendem como limpos ou naturais mas não colocam a formulação completa (sabe quando só tem aquele “ingredientes ativos”?) nos seus sites: desconfie. Por que precisa esconder se é tão ótima assim?

Print de um site. Repare nos discursos de que uma compra é um ato de ajuda ao planeta.

O que fazer quando você identificar o greenwashing

Questione: mande perguntas para a marca, para que ela seja mais clara nas alegações que ela faz. Se ela diz que é natural, que explique o porquê. Se ela diz que é orgânica, que nos mostre como. Se ela não tem como provar, está mentindo.

Sabe aquele ditado que diz “prevenido morreu de velho”? Eu prefiro ser assim quando o assunto são produtos sustentáveis. Talvez nem sempre seja má fé exclusivamente, as pessoas que gerem as marcas também são como nós que começamos tendo concepções rasas sobre o que é mais ou menos impactante e o que de fato é sustentável versus o que não é. Mas se você questionar, vai fazer a marca aprender com seus erros também e melhorar.

Denuncie: sim, dá pra denunciar práticas mentirosas de propaganda. Você pode acionar o CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) para denunciar que tipo de mentira está sendo praticada. Ainda que as regulamentações não sejam exatamente claras sobre as questões que envolvem o greenwashing, se muitas pessoas começaram a denunciar, quem sabe isso exerça pressão para uma regulamentação específica.

Você sempre pode (e deve!) ser uma pessoa-autoridade e denunciar você mesmo usando suas redes sociais, por exemplo, que as práticas da marca x não estão de acordo. Mas aqui vale um lembrete: pesquise antes, contate a marca antes e espere suas respostas.


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Autor: Cristal Muniz

Cristal Muniz decidiu em 2015 que iria parar de produzir lixo e por isso criou o blog Um Ano Sem Lixo. Ao longo desses anos já deu várias palestras em escolas, universidades e eventos contando quais são os principais desafios e o que mudou na sua vida para alcançar o objetivo do lixo zero. Um ano virou uma vida e em julho de 2018 publicou o livro Uma vida sem lixo (Editora Alaúde), o primeiro livro sobre como ter uma vida lixo zero do Brasil.

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