O equilíbrio necessário

Uma vez, por conta da cúrcuma que a Bela Gil disse usar pra escovar os dentes, uma amiga disse que apesar de ser entusiasta e completamente a favor do mundo natural, a gente precisa buscar o equilíbrio entre as soluções naturais e as soluções industrializadas. Era uma alusão ao açúcar exagerado que tanta gente come e a possível necessidade de uma pasta de dente não natural pra realmente limpar a alimentação que também não era natural.

Viver em um mundo e em uma cidade que abdicou das árvores, da alimentação natural, que incluiu na dieta das pessoas açúcar refinado até em coisas que são salgadas, a loucura e o estresse das cidades, não é fácil de aguentar. Estamos o tempo todo em um estado de espírito de uma preocupação, um senso de urgência (de nada). Os problemas se potencializaram, por isso as soluções precisam muitas vezes serem potencializadas.

Concordei tão absolutamente que, a partir daí, sempre caminhei com essa ideia na cabeça. Quando me perguntavam “e a camisinha?” por causa do lixo, sempre fiz questão de lembrar que ela precisa sim ser usada. É uma questão de saúde. A mesma lógica funciona para o papel higiênico e também pro protetor solar.

O problema maior, pra mim, é que vivemos hoje em dia em uma sociedade que quer medicamentar tudo e qualquer coisa. Ao invés de mudar o problema em si, remedia-se. Serve pra antidepressivos receitados por qualquer motivo, falta de vitamina D pelo uso em excesso de protetor solar, alergias por causa de ingredientes de cosméticos, anemia em pessoas que tem farto acesso a comida.

A ciência tem sido importante pra garantir melhorias de vida e tem sido importante também pra mostrar as barreiras seguras que estamos ultrapassando como o aquecimento dos mares, o degelo de calotas polares, os buracos da camada de ozônio, o lixo que não se decompõe há anos.

Viver é causar impacto. Somos muitos humanos, precisamos (culturalmente ou não) de muitas coisas. Pra achar o equilíbrio entre o impacto que você causa e suas crenças, é preciso uma viagem pro centro de si mesmo. Viver também é muito difícil, como foi no ano passado pra mim (e pra tantos nós). Lutar contra as suas coisas e as coisas do mundo cansa. Por isso, ano passado eu escolhi lutar mais contra as minhas coisas antes de reenfrentar o mundo.

Pra mim, toda a questão do lixo-sustentabilidade-natural virou essencial na minha vida. Quero aprender sempre mais pra poder tomar decisões conscientes sobre os produtos que uso. Quero saber sobre o processo de produção das roupas que visto. Quero questionar o que as indústrias me dizem que é seguro mesmo tendo estudos que mostram o contrário. Quero precisar de menos e decidir por mim mesma o que eu preciso.

O feminismo foi fundamental nessa busca. Aprendi que não sou louca, que mereço muita coisa que achava que não era pra mim, que sou bonita do jeito que quiser, não do jeito que condicionaram que preciso ser. Essa libertação fez uma diferença enorme, mas isso é papo pra outro post muito em breve. 🙂

Hoje é o primeiro dia útil de um novo ano. A gente sempre faz promessas, listas, metas, sonha e deseja. O único jeito de cumprir tudo é sendo obstinado e tendo coragem de enfrentar os próprios medos, preguiças e dificuldades pra chegar lá. Meus desejos pra 2017 são que cada vez mais pessoas descubram que existem muitos jeitos de diminuir os ingredientes nocivos de cosméticos, produtos de limpeza e comidas. Que a gente aprenda a trocar o descartável pelo reutilizável e gere menos lixo. Porque assim, com menos preocupações, a vida fica mais tranquila. 🙂

Um ano novo mais tranquilo e feliz pra todos nós. E fôlego pra batalha que é enfrentar o mundo todos os dias.

Volto ainda essa semana com metas pessoais pro Um Ano Sem Lixo (no começo do seu terceiro ano!) pra melhorar a redução de lixo, fazer um panorama de como é minha rotina no banheiro, na cozinha, em todos os cômodos e situações pra identificar o que ainda pode melhorar. E assim pra mostrar como vou lidando com o equilíbrio nas áreas da minha vida.

Autor: Cristal Muniz

Cristal Muniz decidiu em 2015 que iria parar de produzir lixo e por isso criou o blog Um Ano Sem Lixo. Ao longo desses anos já deu várias palestras em escolas, universidades e eventos contando quais são os principais desafios e o que mudou na sua vida para alcançar o objetivo do lixo zero. Um ano virou uma vida e em julho de 2018 publicou o livro Uma vida sem lixo (Editora Alaúde), o primeiro livro sobre como ter uma vida lixo zero do Brasil.

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